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  • QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS - Capítulo I

     

    I

    A VELHA BRUXA

                                                                                                                                                                                                                                         

                            Naquela hora da tarde, inflexíveis sombras dominavam a fachada inferior da casa, parecendo que  a parti dali a cobririam com vestes solenes. O silêncio mélico dos campos ia se desfazendo vagarosamente, enquanto o crescente zunido dos insetos anunciava a chegada da noite. A bruxa escrevia, recostada numa cadeira de carvalho, o conhecimento de uma vida inteira. Possuía a diligência própria dos visionários e dos que aguardam a derradeira passagem.

                            Naquele momento também, ela observava ao longe, atenta e intrigada, o horizonte cor de cobre. Por aquelas bandas, as nuvens mais baixas eram tingidas em vários tons rubros, carregando-se ainda mais na cor conforme a escuridão avançava. Em certo ponto, viam-se os mesmos fulvos raios prorrompendo acima dos bastiões montanhosos para depois desaparecerem no manto da noite. Encantada com o que assistia, às vezes, um aparente desleixo tomava o curso da escrita. Assim, rabiscava o papel de forma livre, embora por perícia do ofício as idéias não se viam ali ameaçadas, pelo contrário, fabricavam-se umas às outras.

                Palavras e mais palavras davam vida ao misterioso escrito, mesmo se elas, como tépidas folhas, caíssem imprecisas, enrugadas e mortas. Serviam ao menos para fertilizar o árido papel em branco, isto quando não se transformavam na viçosa folhagem das letras. Então, o vento do espírito, por entre os ramos bordados de tinta, soprava a brisa ágil e fecunda, sendo possível até ouvir, no farfalhar das folhagens, estes sons das mudas letras:

                            Nasci pelas ordens que formaram o mundo nas inumeráveis dobras do tempo, tempo  este no qual os nomes dos reis figuravam como lei maior. Acorrentada ao destino como um ser atormentado e inquieto, possuía uma enorme fome pela vida e no que nela se expressa como dor e prazer. Deparei-me então, com a força poderosa da magia que me transformou por dentro e por fora e no que me tornei nesta existência  ¾  com esta casca humana ¾ uma  feiticeira do fogo e da terra  cuja  semente viera das estrelas. Vi, ante meus olhos fascinados, o que para a maioria das pessoas poderia ser uma imponderável realidade: numa noite sem lua, a cidade dos anjos aparecer com a luminosidade do sol, para  de alguma forma, acredito eu, emprestar mais nobreza ao mundo dos homens.

                             Tenho, é verdade, deste mundo,  a dor de tantos outros  que perderam seus entes mais queridos.  Na minha longa vida, minhas inesquecíveis companheiras, as herdeiras das tradições que guardam o primado da Mãe Terra e da Grande Loba. Tudo, como ainda me recordo daquela ocasião, aconteceu repentinamente,  quando no seio da nossa irmandade, a qual chamávamos Irmandade da Loba,  fomos vítimas da traição de uma das nossas líderes ¾ Deirdhre Gridelim. Possibilitando aos tão temidos inquisidores prepararem uma cilada nos arredores de uma vila, passagem para a secular cidade de Albi, sul da França.  Muitas foram capturadas ou mortas, embora um pequeno grupo conseguisse escapar do confronto inicial, retornando ao Vale dos Lobos, nosso lar. Nesse retorno, uma matriarca morreu e outra de nossas irmãs, de nome Itangra, decidiu não seguir na mesma direção. Se sua sorte fora melhor, nós não sabíamos ao certo, pois os inquisidores continuaram incansáveis em nosso encalço até nos alcançarem no Vale dos Lobos. Por muito pouco não fomos capturadas. Neste episódio, duas de minhas irmãs-lobas, Lintra e Singra, em nobre sacrifício, ofereceram-se para permanecerem ali com o propósito de reterem o máximo os nossos perseguidores e garantir ao restante do grupo das feiticeiras  uma maior chance na fuga.

              A verdade era que apenas seis de nós, feiticeiras-lobas, restavam livres da pesada mão dos seculares inquisidores quando partimos para sempre da nossa amada terra. Por fim, ainda sofremos um derradeiro revés no momento em que esse pequeno  grupo de feiticeiras teve que se dividir:  eu, de nome Urtra, consagrada matriarca da Irmandade da Loba, segui, junto com a menina  Yalana,  o caminho para oeste;  Cailantra, Virna, Urânia e a menina Isiandra tomaram uma outra direção, um curso mais para o norte. Tudo está descrito no livro Da Claridade e Das Sombras, redescoberto por mim há pouco tempo. Já reli uma boa parte de seu conteúdo e continuarei lendo até o final, a  fim de rememorar todos os acontecimentos daquela época de aventuras e perigos constantes. Isto, enquanto aguardo cumprir a promessa que precede, até mesmo, a existência das primeiras letras desse importante livro, a misteriosa pessoa que virá reclamá-lo como herdeiro.

                            No meu entendimento, tenho  acreditado que cumpri, como desafio maior, a parte que me coube no serviço da antiga ordem das mulheres-lobas. E estou certa que tive a sorte de contemplar a face de deuses esquecidos que me vieram assustados com os labores dos homens. E, não menos importante, aqueles que vieram do abismo celeste, anjos ou demônios, para me dotarem de poder e revelarem segredos sobre a origem de uma parte da humanidade. Contudo, ainda não alcancei a sabedoria dos antigos artífices da magia que poderia me libertar  das encarnações em vidas futuras, entendendo a necessidade delas no aprimoramento contínuo de minhas imperfeições humanas. Hoje, nesta  minha idade adiantada, ou assim me parece, com a graça desses anjos caídos, sinto uma única e enorme perplexidade nas horas que olho para o céu noturno. Tudo por compreender que, de alguma forma, o futuro está lá, nas estrelas.

     

  • QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS


     

    História - QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS


    O ano é 1491 e o lugar é o sul da França nas proximidades das velhas cidades de Albi e Cordes. Este livro conta a história do que restou de uma irmandade misteriosa e fascinante de feiticeiras-lobas. Mulheres de beleza extraordinária, fortes e orgulhosas de suas existências, dedicadas, ainda que naqueles tempos da inquisição, à magia antiga. Mas isso é apenas parte do seu mistério envolvente, pois muito mais será revelado nessa história que extrapola o comum e o ordinário, mesmo para os dias de hoje. Após a traição da líder, uma outra assume, ela tem o nome druida de Urtra. Nela foi depositada as últimas esperanças para conduzir e salvar a tradição, a magia antiga e os ensinamentos revelados.


    “No sul da França, velhos carvalhos destilam os crepúsculos de uma outrora vida por um enigma que vive no coração de muitos. Cantai, cantai com todo amor, recordai minhas aventuras e minhas alegrias, que coração pode ser mais intenso que um coração bruxo? Os lobos uivam, fendendo o tempo, a velhice e a solitude do verbo. Os sentidos bruxos mergulham na matéria esquecida e inculta, desnudando-a de sua capa desonesta. Doces vozes ciganas clamam por minhas feridas e uma certa saudade impura. É chegada a hora para o mistério que me inclina sobre a face do perdão e da fúria. Nada mais me vigia. O corpo me reconhece na sua pintura carnal uma trama de estrelas quando rodeado de pessoas nuas e pelo testemunho do sol vestal das fogueiras. Um único passo devolveria meu império de segredos e um punhado de flores maduras, mas preferi as janelas daquele olhar de centenas de luas e uma mulher que não seria única.”


    Medricie será iniciada na magia, e sua vida nunca mais será a mesma. O contato com Urtra, uma feiticeira-loba, a libertará das culpas e dos medos. Urtra é uma bruxa maior, ligada aos lobos por uma tradição da Magia Natural e a uma fonte de poder que está além deste mundo. O ano é 1491, nas proximidades das velhas cidades de Albi e Cordes até Les Baux de Provence, França. Este livro conta a história do que restou de uma comunidade de mulheres que viviam entre um vale temido, cidadelas e vilas, formando uma irmandade misteriosa e fascinante de feiticeiras-lobas. Mulheres de beleza extraordinária, fortes e orgulhosas de suas existências, dedicadas, ainda que naqueles tempos da inquisição, ao culto do feminino. O lobo representava um portal de comunicação com o mundo espiritual e o poder de manipulação sobre a esfera material e tangível.
  • SUPERAÇÃO

    O que talvez nos faça livre não é a liberdade oferecida de dentro da prisão do outro; ou por nossas convicções requintadas, feitas de incômodos; ou por nossas desculpas sinceras e benevolentes. A superação não é um grito no vazio ou uma descida por escadarias de mármores brilhantes no lusco-fusco que a madrugada doa no seu missal perpétuo. É uma subida íngreme por desfiladeiros gelados, onde cada passo nosso é um risco ab intestato (sem testamento), quando só existimos nos tropeços e nos desastres. Por outro lado, nesse horizonte de desolação e de cansaço avizinha-se a mais bela paisagem da conquista. A força aí nascitura se irradia pelos recantos do ser como assombro e afago, mas em continuidade formadora surge a serenidade que entre o fardo e o êxtase, aquece o amor do amar-se. (Carlos Costa)

  • GNOMO

    Tomai, tomai vossos ares e escrúpulos; vossos caprichosos cadernos de anotações para que a memória seja visitada diversas vezes. Vim de uma época passada e cheguei ser rei da brisa olorosa do dia. O raio do sol patrocinou toda minha riqueza, mas sou filho mestiço da lua. A mais bela lua cheia das estações. Dizem que isto chega ser uma vantagem. Não sei bem, não procurei investigar. O fato é que o manto voraz da mortalidade dispensa-me de suas obrigações. Falo a língua das fadas, e no mundo dos homens sou um intruso irrequieto. Onde me encontrar? Sempre saltitante entre um olhar e outro. Claro, acusam-me de estar sempre escondido. Não é verdade! O que faço é descansar na superfície rutilante do gesto verdadeiro. E saibam: ainda que imortal, minha função não é fazer milagres, mas apreciá-los. O meu predileto é ver o sol nascer todos os dias. (Carlos  Costa)

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